Neurocientista e neuropsicólogo esclarecem ao TechTudo como o uso frequente do celular afeta a atenção, o aprendizado e a memória; veja hábitos para evitar dependência

Esquecer números de telefone, depender do GPS para encontrar endereços e recorrer ao Google para recuperar informações são hábitos comuns na rotina. Com tantas tarefas delegadas ao celular, é natural questionar se essa dependência pode prejudicar a memória. Embora o uso frequente do aparelho possa afetar a atenção e a forma como memorizamos informações, não há evidências suficientes de que provoque danos permanentes à capacidade de lembrar. O impacto depende também da maneira como utilizamos a tecnologia.

Em entrevista ao TechTudo, a neurocientista Helena Levorato e o neuropsicólogo Damião Silva explicam como o celular influencia nossos hábitos de memorização e por que as distrações frequentes ao longo do dia podem dificultar o registro de informações. Os especialistas também abordam a chamada terceirização da memória, fenômeno que ocorre quando delegamos tarefas a recursos externos, como agendas digitais e aplicativos de navegação, e apontam cuidados para evitar a dependência excessiva do aparelho.

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Celular prejudica a memória? Especialistas explicam o que diz a ciência — Foto: Mariana Saguias/TechTudo

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Celular prejudica a memória? Especialistas explicam o que diz a ciência

No índice abaixo, veja todos os assuntos tratados nesta matéria.

- Por que temos a impressão de que estamos esquecendo mais?

- O celular realmente prejudica a memória?

- O que é a terceirização da memória?

- GPS, Google e agenda podem fazer o cérebro trabalhar menos?

- Deixar de exercitar a memória pode trazer consequências?

- Como usar o celular sem ficar dependente dele para lembrar de tudo?

Por que temos a impressão de que estamos esquecendo mais?

A sensação de esquecer informações com frequência pode estar relacionada à forma como lidamos com os estímulos ao longo do dia. Ler uma mensagem durante uma atividade, interromper uma conversa para verificar uma notificação ou alternar entre aplicativos são situações que exigem mudanças constantes de foco.

“Muitas situações que interpretamos como falhas de memória são, na verdade, dificuldades de atenção. Quando alternamos constantemente entre aplicativos, mensagens e notificações, podemos comprometer a concentração e dificultar a aprendizagem. Portanto, nem sempre o problema é esquecer uma informação, mas não ter prestado atenção suficiente para registrá-la adequadamente”, explica Damião.

Helena acrescenta que a atenção também interfere na profundidade com que processamos aquilo que aprendemos. Em atividades como leitura e estudo, as interrupções frequentes podem dificultar a compreensão do conteúdo.

“Quando estamos lendo alguma coisa, estudando ou tentando compreender um assunto e somos interrompidos constantemente por notificações, mensagens e outros estímulos, fica mais difícil manter a concentração necessária para processar aquela informação de maneira mais profunda”, afirma a neurocientista.

Especialistas explicam por que temos a impressão de que estamos esquecendo mais ao usar o celular — Foto: Mariana Saguias/TechTudo

O celular realmente prejudica a memória?

Embora o uso de smartphones esteja associado a mudanças na maneira como prestamos atenção e acessamos informações, ainda não há comprovação de que o hábito provoque uma deterioração permanente da memória. As pesquisas disponíveis investigam diferentes aspectos da cognição, mas seus resultados não permitem concluir que recorrer ao celular cause, por si só, uma perda duradoura dessa capacidade.

“Não temos evidências científicas suficientes para afirmar que a dependência de ferramentas digitais esteja provocando prejuízos permanentes à nossa capacidade de memória. E acho importante ter esse cuidado, porque existe uma tendência de associar qualquer mudança nos nossos hábitos cognitivos a uma possível perda de capacidade, quando o funcionamento do cérebro é muito mais complexo que isso”, afirma Helena.

Uma diferença importante está entre não memorizar algo por falta de necessidade e apresentar dificuldades reais para aprender ou recuperar informações. Há alguns anos, por exemplo, era comum decorar números de telefone de familiares e amigos. Hoje, esses contatos ficam armazenados no aparelho, o que diminui a necessidade de recordá-los sem ajuda.

Para especialistas, ainda não há comprovação de que o hábito de usar o celular provoque uma deterioração permanente da memória — Foto: Mariana Saguias/TechTudo

Para identificar um possível comprometimento, é necessário examinar diferentes funções cognitivas e considerar fatores que podem interferir no desempenho.

“Do ponto de vista científico, um prejuízo real de memória precisa ser avaliado considerando diferentes processos cognitivos. Existem muitos testes neuropsicológicos que investigam nossa capacidade de aprender novas informações, armazená-las e recuperá-las posteriormente. Essa avaliação também precisa levar em conta fatores como atenção, qualidade do sono, estresse, condições de saúde e estado emocional, porque todos eles podem interferir bastante no desempenho cognitivo”, explica Helena.
O que é a terceirização da memória?
A terceirização cognitiva, conhecida como cognitive offloading, ocorre quando recorremos a recursos externos para realizar tarefas que, de outra forma, dependeriam de processos mentais. O fenômeno não surgiu com a tecnologia digital. Listas de compras, calendários e anotações em papel já cumpriam essa função muito antes da popularização dos smartphones.
“A terceirização cognitiva é um fenômeno bastante interessante porque faz parte da maneira como os seres humanos sempre lidaram com a informação. Quando anotamos um compromisso, consultamos um calendário ou utilizamos uma agenda, também estamos transferindo para um recurso externo uma tarefa que poderia depender da nossa memória, certo?”, explica Helena.
Uma revisão publicada na revista científica Nature Reviews Psychology, em 2025, analisou pesquisas sobre os benefícios e possíveis custos da terceirização cognitiva. Os autores discutem como recursos externos podem facilitar o desempenho em tarefas de memória, mas também o risco de depender de informações que nem sempre estarão disponíveis.
Fenômeno da terceirização da memória não surgiu com ferramentas digitais, mas é potencializado pelo celular — Foto: Mariana Saguias/TechTudo
Um dos efeitos observados nos estudos revisados aparece quando uma pessoa perde inesperadamente o acesso ao recurso utilizado para guardar informações. Nessas condições, o desempenho pode ser inferior ao de indivíduos que precisaram confiar apenas na própria memória desde o início. O resultado não significa que a ferramenta tenha causado um dano cerebral, mas mostra que delegar uma tarefa pode modificar a estratégia utilizada para executá-la.
A neurocientista ressalta, porém, que delegar tarefas ao celular também pode trazer vantagens. “Quando deixamos de precisar lembrar cada compromisso ou cada informação operacional do dia a dia, podemos direcionar nossa atenção para atividades que exigem mais análise, criatividade e tomada de decisão”, acrescenta Helena.
GPS, Google e agenda podem fazer o cérebro trabalhar menos?
As ferramentas digitais permitem concluir tarefas sem necessariamente memorizar todas as informações envolvidas. Ao seguir uma rota indicada pelo GPS, por exemplo, o usuário pode chegar ao destino sem precisar identificar ruas ou pontos de referência. Em uma pesquisa na internet, também é possível obter uma resposta sem guardar seu conteúdo para consultas futuras.
“Quando seguimos o GPS sem observar o caminho, por exemplo, podemos aprender menos sobre aquele trajeto. O mesmo acontece quando consultamos informações sem tentar recordá-las. Entretanto, não há evidências suficientes de que essas tecnologias, isoladamente, provoquem uma deterioração generalizada da memória. O impacto depende principalmente da maneira como as utilizamos”, explica Damião.
GPS, Google e agenda do celular podem fazer o cérebro trabalhar menos — Foto: Mariana Saguias/TechTudo
Um estudo publicado na revista Science, em 2011, identificou que pessoas que esperavam consultar informações posteriormente tendiam a memorizar menos seu conteúdo e a lembrar melhor onde encontrá-lo. O fenômeno ficou conhecido como "efeito Google", embora seus resultados não tenham sido reproduzidos em uma tentativa posterior de replicação.
Helena ressalta que encontrar uma informação rapidamente não significa necessariamente compreendê-la. “Saber onde encontrar uma resposta é muito útil, claro, mas existe uma parte importante da aprendizagem que acontece quando precisamos refletir sobre aquela informação, relacioná-la com conhecimentos anteriores e construir nosso próprio entendimento”, diz.
Deixar de exercitar a memória pode trazer consequências?
A redução da prática de determinadas habilidades pode influenciar a maneira como o cérebro responde às tarefas do cotidiano. Isso não significa, porém, que deixar de decorar números de telefone ou utilizar o GPS provoque uma perda generalizada da memória. A relação entre hábitos digitais e funcionamento cognitivo envolve processos de adaptação que ainda são investigados.
“Um conceito fundamental para compreender isso é a neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de modificar suas conexões e seu funcionamento a partir das experiências, dos estímulos e das atividades que realizamos. Ao longo da vida, nosso cérebro se adapta continuamente às demandas do ambiente, e naturalmente o uso intensivo de tecnologias digitais também faz parte dessas experiências”, explica Helena.
Essas adaptações podem variar conforme a atividade realizada, a intensidade do uso e a fase da vida. A neurocientista também ressalta que nem todas as formas de interação com a tecnologia apresentam as mesmas características.
“Na minha avaliação, ainda precisamos compreender melhor os efeitos de longo prazo dessa exposição digital, principalmente porque os smartphones passaram a ocupar um espaço muito grande na nossa rotina em um período relativamente recente. Também considero importante observar as diferenças entre um uso que estimula aprendizagem, interação e resolução de problemas e aquele marcado por interrupções constantes ou consumo excessivamente passivo de informação.”
Relação com o celular pode se tornar problemática quando interfere na autonomia para realizar atividades cotidianas — Foto: Mariana Saguias/TechTudo
A revisão publicada na Nature Reviews Psychology também discute diferenças individuais na utilização de recursos externos, incluindo fatores como idade e capacidade de memória de trabalho. Essas características podem influenciar os benefícios da terceirização cognitiva, o que impede tratar seus efeitos como iguais para todas as pessoas.
Damião aponta que a relação com o aparelho pode se tornar problemática quando interfere na autonomia para realizar atividades cotidianas.
“Quando a pessoa começa a sentir insegurança para realizar atividades simples sem consultar o aparelho, apresenta necessidade constante de verificar informações ou percebe prejuízos na autonomia e na atenção. Também precisamos considerar que dificuldades de memória podem estar associadas ao estresse, à ansiedade e à qualidade do sono, não necessariamente ao celular”, afirma.
Como usar o celular sem ficar dependente dele para lembrar de tudo?
O uso do smartphone não precisa ser reduzido a uma escolha entre depender da tecnologia ou exercitar a memória. É possível manter as facilidades do aparelho e adotar hábitos que estimulem a concentração e o aprendizado. Uma das estratégias é reservar momentos para realizar determinadas tarefas sem consultar imediatamente uma tela.
“Tentar lembrar uma informação antes de pesquisá-la, explicar com as próprias palavras aquilo que aprendemos, observar trajetos mesmo utilizando GPS e reduzir distrações digitais são estratégias úteis”, orienta Damião.
Os cuidados também vão além da relação com o celular. A saúde cognitiva depende de diferentes fatores, incluindo o descanso e a manutenção de atividades que exigem aprendizado. Por isso, estimular a memória não significa apenas decorar informações, mas também criar condições para que o cérebro consiga processá-las adequadamente.
“Sono adequado, atividade física e aprendizagem contínua também favorecem a saúde cognitiva. O objetivo não é abandonar a tecnologia, mas utilizá-la sem deixar de estimular nossa capacidade de pensar, aprender e recordar”, acrescenta o neuropsicólogo.
Veja dicas para usar o celular sem prejudicar a memória — Foto: Mariana Saguias/TechTudo
Checklist: seis dicas para usar o celular sem prejudicar a memória ✅
- Tente lembrar de uma informação antes de pesquisá-la;
- Depois de pesquisar algo no celular, tente recordar e explicar a informação sem consultar a tela;
- Observe os trajetos e pontos de referência, mesmo quando usar o GPS;
- Reduza as distrações digitais durante atividades que exigem concentração;
- Reserve momentos para realizar tarefas sem consultar o celular;
- Mantenha uma rotina com sono adequado, atividade física e aprendizagem contínua.
Com informações de Nature, Science e Extra
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