Controle da Câmara ou do Senado daria à oposição poder para emitir intimações e recursos para reforçar suas equipes de investigação que colocariam o império da família do presidente no centro das atenções

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fala com jornalistas no gramado sul da Casa Branca antes de embarcar no Marine One — Foto: Samuel Corum/Sipa/Bloomberg

Empresas que fizeram doações para o salão de festas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e participantes de negócios intermediados por integrantes da família Trump devem estar entre os primeiros alvos de investigações caso os democratas assumam o controle da Câmara dos Deputados ou do Senado nas eleições de meio de mandato de novembro, disseram à Reuters nos últimos dias diversos assessores do Congresso, parlamentares e advogados.

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O controle de qualquer uma das duas Casas daria aos democratas poder para emitir intimações e recursos para reforçar suas equipes de investigação, permitindo que abrissem apurações já em fevereiro e potencialmente desencadeando longas batalhas judiciais que colocariam o império empresarial da família Trump no centro das atenções.
As investigações poderiam dominar a segunda metade do mandato de Trump, após dois anos de negócios nos quais a família expandiu sua atuação para criptomoedas, drones, inteligência artificial e mercados de previsão, enquanto a fortuna pessoal do presidente cresceu cerca de US$ 2,2 bilhões.
“Não acho que os democratas terão paciência. Eles vão querer os documentos muito rapidamente. Não vai dar para usar a velha estratégia de empurrar com a barriga até o tempo acabar”, disse Ashley Callen, advogada do escritório Jenner & Block e ex-assessora jurídica do presidente republicano da Câmara, Mike Johnson.
O líder democrata na Câmara dos Deputados, Hakeem Jeffries, de Nova York, disse a jornalistas em 17 de setembro: “Vamos responsabilizar os corruptos, a partir do primeiro dia.”
O governo Trump criticou a perspectiva de investigações. “Os democratas não têm uma agenda para melhorar a vida do povo americano, apenas planos para obstruir e atacar sem fundamento a agenda de bom senso do presidente Trump”, disse a porta-voz da Casa Branca Olivia Wales em comunicado enviado por email à Reuters.
As empresas são alvos particularmente propícios para investigações porque, ao contrário da Casa Branca, não podem alegar que suas atividades são protegidas pelo privilégio do Executivo.
Empresas de criptomoedas ligadas a Trump e a firma de capital de risco 1789 Capital, de Donald Trump Jr., despertam interesse especial, de acordo com o deputado democrata Jamie Raskin, de Maryland, e o senador democrata Richard Blumenthal, de Connecticut, embora ambos os políticos tenham ressaltado que ainda não há uma lista definitiva de alvos.
Empresas com vínculos com Trump e sua família estão fazendo preparativos urgentes, incluindo a contratação de advogados para auditorias internas e de empresas de gestão de crise para cuidar da comunicação pública, conforme entrevistas com advogados corporativos, especialistas em gestão de crises, assessores do Congresso e parlamentares.
O senador democrata Sheldon Whitehouse, de Rhode Island, divulgou na quinta-feira um relatório segundo o qual empresas de petróleo e gás obtiveram benefícios fiscais, subsídios e regras ambientais mais brandas depois que Trump lhes pediu US$ 1 bilhão em doações durante sua campanha presidencial de 2024, abrindo outra possível frente de investigação.
Donald Trump Jr. estará possivelmente no centro de investigações sobre os negócios da família Trump caso os democratas vençam as eleições de meio de mandato — Foto: REUTERS/Brian Snyder
Foco na família Trump
Adam Schiff, senador democrata pela Califórnia, advertiu empresas a não apagar nenhum registro relacionado a transações com Trump e seu governo. “Podemos tornar a vida muito difícil para o governo se vocês desrespeitarem pedidos legítimos de fiscalização do Congresso”, disse Schiff em entrevista, citando o poder do Congresso sobre o financiamento das agências.
Entre as transações que despertam a atenção de Schiff está a proposta de venda de uma parte do Parque Nacional de Yosemite a uma incorporadora privada com vínculos com comitês de campanha republicanos. “Neste governo, tudo está à venda, inclusive nossas joias mais preciosas, como Yosemite”, afirmou.
Mas o principal alvo dos democratas parece ser a família Trump — especialmente Donald Jr., que fechou uma série de negócios desde que seu pai venceu a eleição em novembro de 2024. “A primeira-família está ganhando dinheiro a rodo”, disse Schiff.
Jared Kushner, genro de Trump, “é um executivo do setor privado com quem certamente precisaremos conversar”, afirmou Raskin, que poderá assumir a presidência do poderoso Comitê Judiciário caso os democratas conquistem o controle da Câmara.
Segundo Raskin, Kushner não respondeu a duas cartas com questionamentos sobre os negócios de sua empresa de private equity, a Affinity Partners, com “monarquias petrolíferas e governos” do Oriente Médio, ao mesmo tempo em que representa os EUA em negociações diplomáticas.
Raskin mencionou acordos fechados por Kushner com Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos enquanto ele atuava como enviado presidencial. “Isso é um conflito de interesses absurdo”, afirmou.
Kushner é enviado especial dos EUA para a paz, mas não é funcionário do governo. Funcionários federais estão sujeitos a regras que os proíbem de participar de atividades que possam beneficiá-los financeiramente.
Chad Mizelle, advogado de Kushner, afirmou em comunicado que as acusações contra ele são falsas. “E, até hoje, ninguém — nem mesmo os críticos de Jared — identificou uma única regra ou norma aplicável que ele tenha violado”, disse Mizelle.
Raskin também destacou um empréstimo de US$ 620 milhões do Pentágono à startup de terras raras Vulcan Elements, anunciado cerca de três meses depois de um investimento do fundo 1789 Capital, de Donald Trump Jr.
“Ele parece ter uma capacidade de clarividência para saber exatamente quem vai conseguir contratos públicos e quem receberá tratamento regulatório favorável no governo Trump”, disse Raskin.
Em comunicado à Reuters, um porta-voz da Vulcan afirmou que a empresa “não pediu nem solicitou a seus investidores que facilitassem o empréstimo do Pentágono” e que continuaria dialogando com o Congresso “de boa-fé”.
A 1789 Capital contratou o renomado escritório de advocacia Quinn Emanuel para lidar com investigações do Congresso e já sinaliza que pretende resistir às apurações dos democratas.
“A 1789 Capital acolhe a fiscalização legítima do Congresso”, afirmou a empresa em resposta ao Congresso datada de 9 de setembro, “mas não pretende ficar refém de jogos políticos”.
Em comunicado à Reuters, um porta-voz da 1789 afirmou que “o deputado Raskin não apresentou nenhuma prova de irregularidade, apenas acusações com motivação política”, acrescentando que a carta do parlamentar demonstrava “uma preocupante falta de conhecimento financeiro”.
O governo do presidente dos EUA, Donald Trump, critica investigações feitas por democratas sobre seus negócios — Foto: AP Photo/Julia Demaree Nikhinson
Riscos para executivos de empresas
O senador republicano Kevin Cramer, da Dakota do Norte, rejeitou a necessidade dessas investigações e disse à Reuters que os democratas poderiam sofrer uma reação negativa dos eleitores por “se fixarem e ficarem obcecados com Donald Trump, sua vida pessoal e seus negócios, em vez das questões que importam para o povo americano”.
Alguns republicanos, porém, podem se juntar aos esforços dos democratas. O senador republicano John Curtis, de Utah, que está em seu primeiro mandato, pediu que Donald Trump Jr. seja investigado por ter permitido que um oligarca russo pagasse pelas festas de seu casamento nas Bahamas.
As empresas terão de decidir se atenderão rapidamente às investigações, o que poderia provocar a ira de Trump, disseram alguns advogados. A falta de cooperação com o Congresso pode, por outro lado, criar riscos jurídicos para executivos e uma possível reação negativa de consumidores.
“Há sempre um risco à reputação em qualquer investigação do Congresso”, disse Kevin Edgar, sócio do escritório BakerHostetler e ex-assessor parlamentar.
Um advogado, que pediu anonimato para proteger seus clientes, afirmou que um desfecho ideal para algumas empresas poderia, na verdade, ser a Casa Branca processá-las para impedi-las de fornecer informações sob a alegação de privilégio do Executivo. “Isso lhes dá a possibilidade de dizer: papai e mamãe, digam o que devo fazer”, afirmou.
Algumas empresas já estavam encaminhando à Casa Branca pedidos de informações recebidos do Congresso.
Em uma carta de 1º de julho, até então não divulgada e vista pela Reuters, a Clark Construction, empreiteira responsável pelo salão de festas, respondeu a um pedido de Blumenthal sobre a “escalada dos custos” afirmando que os termos do acordo exigiam que todas as informações fossem fornecidas pela Casa Branca.
Blumenthal, que poderá assumir a presidência de uma comissão de investigações, disse à Reuters: “Vamos usar nosso poder de intimação, sem dúvida”, caso os democratas conquistem o controle do Senado em novembro.
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