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Uma eleição bem diferente
Uma eleição bem diferente · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Míriam Leitão

Uma eleição bem diferente
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A 10 dias do primeiro turno, o Brasil segue sem discutir propostas. Nunca se foi tão longe nesse processo de alienação da realidade quanto nesta campanha

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Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) aparecem empatados. — Foto: Ricardo Stuckert / Charles Vieira

A eleição deste ano não tem qualquer discussão de política pública, e o processo está sendo soterrado por um tsunami de notícias sobre escândalos. Algumas sérias, outras usadas para confundir. Em ambiente assim, é melhor separar o fato da fumaça feita para esconder a realidade. O candidato Flávio Bolsonaro entrar com uma notícia-crime contra o presidente Lula por suposta relação com Daniel Vorcaro, e por, talvez, ter recebido um whisky, é pura fumaça. Vamos aos fatos. O Banco Central não permitiu a compra do Master pelo BRB, liquidou o Master e denunciou os indícios de crime. A Polícia Federal investigou e prendeu Vorcaro, o pai do Vorcaro, o primo e o cunhado. Em que o governo beneficiou o ex-banqueiro?

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Flávio Bolsonaro diz que “conforme foi noticiado”, o advogado Walfrido Warde, que defendia Vorcaro à época, “relata ao seu cliente sucessivas ações destinadas a aproximá-lo do presidente Lula e de autoridades do governo federal”. Registra a reunião que houve no Planalto e cita que “pouco mais de um mês depois” o advogado encaminhou ao Vorcaro “mensagem que indica o recebimento de presente (whisky) do banqueiro por parte do presidente Lula”.

Vamos novamente aos fatos. Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro e recebeu. Insistiu em ter novas parcelas e visitou Vorcaro, após a prisão do então banqueiro, para cobrar mais dinheiro. Não se sabe muito bem, porque ele jamais explicou, o montante que foi para o filme Dark Horse e que caminho percorreu até o seu destino. O candidato do PL é o único dos candidatos ao Planalto que está sendo investigado por suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva e organização criminosa no caso Master. Segundo a notícia-crime que Flávio Bolsonaro apresentou, Lula teria se utilizado do cargo para “atender interesses ilícitos de Daniel Vorcaro”. Foi o senador que disse ao então banqueiro: “fala irmãozão, estarei contigo sempre”.

As notícias sobre a existência de uma suposta “Turma do KN” resultaram numa boa medida preventiva. O Corregedor Nacional de Justiça, Benedito Gonçalves, ordenou o cancelamento do pagamento de R$ 4,73 bilhões em precatórios de usinas de açúcar. Esses papéis foram vendidos ao Banco Master. O dinheiro que estava em contas oficiais será devolvido ao Tesouro. Esse velho pleito dos usineiros, como já disse aqui, é um desses engodos que vão se eternizando no sistema de justiça. Os usineiros disseram que haviam sido prejudicados pelo congelamento do Plano Cruzado, o que não faz qualquer sentido para quem acompanhou os fatos da época. Eles tiveram perdas e ganhos com o congelamento, mas sobretudo foram sempre subsidiados. Vorcaro comprou esses papéis podres e o truque era encontrar magistrados que quisessem dar ganho de causa aos donos dos precatórios. O ministro Kassio Nunes Marques conduziu a segunda turma para o voto em que reconhecia direito dos detentores de precatórios. Direito muito questionável e que agora o ministro Gilmar Mendes quer que seja analisado no plenário.

Nessa enxurrada de notícias sobre os negócios ilícitos e as tentativas de Daniel Vorcaro de corromper a República, muita coisa está se esclarecendo ou exigindo explicação, como as várias comunicações do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro, cliente do escritório de sua mulher. No Supremo Tribunal Federal, uma ala quer que o foco permaneça apenas em Alexandre de Moraes, sobre o qual há fortes indícios. Outra ala defende que sejam todos investigados. Até agora há três ministros citados, ou talvez quatro. Que todas as dúvidas sejam esclarecidas, mas que essa proposta de investigação ampla não seja uma forma de acender o forno de pizza.

O ambiente no país está beligerante, com trocas de acusações, algumas reais, outras resultantes de manipulação. Nesta reta final do processo eleitoral, o Brasil não teve qualquer chance de pensar sobre propostas de políticas públicas em área alguma. Há muito tempo, a polarização extremada tem substituído o bom debate sobre programas de governo, mas nunca se foi tão longe nesse processo de alienação da realidade quanto nesta eleição.

O risco é terminarmos o processo de escolha de novos governantes sem saber o que decidimos para o futuro do país em qualquer área. E a sombra da falta de compromisso com a democracia por parte do candidato Flávio Bolsonaro permanece rondando o país.

(Com Ana Carolina Diniz)

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