(por Mariana Caminha)A Floresta Amazônica que conhecemos hoje não é apenas obra da natureza. Parte dela foi cultivada, transformada e cuidadosamente manejada pelos povos indígenas ao longo de milhares de anos.A afirmação pode surpreender quem cresceu imaginando a Amazônia como uma imensidão verde, intocada pela presença humana. Mas a ciência já demonstrou que a história da maior floresta tropical do planeta é também uma história de engenhosidade, conhecimento e intervenção humana.Foi essa descoberta que reapareceu, quase dez anos depois de sua publicação, em um lugar inesperado: um programa de televisão.Na estreia da quinta temporada de Avisa Lá Que Eu Vou, exibida nesta semana pela TV Globo, Paulo Vieira visita o Território Indígena do Xingu, em Mato Grosso, para acompanhar o Quarup, uma das mais importantes cerimônias dos povos indígenas da região, dedicada à memória e à despedida dos mortos. Com a sensibilidade e o humor que caracterizam seu trabalho, o apresentador mergulha em um universo de rituais, histórias e conhecimentos que resistem à passagem do tempo.Chegando ao fim do episódio, Paulo recupera uma pesquisa publicada em março de 2017 na revista científica Science. Liderado pela ecóloga brasileira Carolina Levis, então pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), o estudo ajudou a derrubar um dos mitos mais persistentes sobre a floresta: o de que sua composição seria resultado exclusivo de processos naturais, sem influência significativa das populações que a habitavam antes da chegada dos europeus.A equipe de pesquisadores analisou milhares de espécies vegetais e identificou 85 espécies de árvores que haviam passado por processos de domesticação pelos povos indígenas. O resultado foi surpreendente: essas espécies tinham cinco vezes mais chances de estar entre as árvores dominantes da Amazônia do que aquelas que não haviam sido domesticadas.Os cientistas também descobriram que a concentração dessas árvores era maior nas proximidades de antigos assentamentos indígenas e sítios arqueológicos. A floresta guardava, em sua própria vegetação, vestígios de comunidades que viveram ali séculos ou milênios antes.Castanheiras, palmeiras, árvores frutíferas e outras espécies úteis foram selecionadas, protegidas, cultivadas e disseminadas por sucessivas gerações.Em outras palavras, os povos indígenas não apenas retiravam alimentos e recursos da floresta. Eles também contribuíam para determinar o que cresceria nela.Um dos inúmeros méritos desta pesquisa é mostrar que a ação indígena teve um papel profundo e duradouro na formação de parte importante da biodiversidade que hoje admiramos.Uma prova de que, durante milhares de anos, a presença humana não significou necessariamente a destruição da floresta. Em muitos lugares, contribuiu para o seu enriquecimento.Isso contraria uma ideia enraizada na maneira como nós enxergamos a conservação ambiental: a de que proteger a natureza significa mantê-la livre da presença humana. Na Amazônia, a ciência nos mostra que povos e floresta não apenas coexistiram. Eles também evoluíram juntos, em uma relação de conhecimento, adaptação e transformação.Quase uma década depois daquele estudo, Carolina Levis continua dedicada a compreender essa relação. Hoje, é professora colaboradora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora afiliada ao Brazil LAB, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Seu trabalho segue aproximando a ecologia acadêmica dos conhecimentos indígenas e demonstrando, por meio da ciência, o valor de práticas tradicionais de manejo da floresta.Que significativo revisitamos esta pesquisa justamente agora, em um momento tão decisivo para o futuro da Amazônia e dos povos indígenas. Obrigada, Paulo Vieira!O Brasil continua discutindo a demarcação de terras, os direitos territoriais indígenas, o avanço de atividades econômicas sobre áreas protegidas e os caminhos para conter o desmatamento. Frequentemente, essas discussões tratam os povos originários como obstáculos ao desenvolvimento ou, quando muito, como populações que precisam ser protegidas.A verdade é que os povos indígenas não são apenas habitantes da Amazônia, nem somente seus guardiões. São também protagonistas de sua história ecológica.Parte da floresta que o mundo deseja preservar existe como a conhecemos graças aos conhecimentos acumulados por seus antepassados. Temos muito a aprender com eles.











