Reinaldo Azevedo

Se vencer, candidato do PL prepara truque a que apelou a ditadura em 66. Nabuco sabia bem que essa gente toma a escravidão como liberdade

Reinaldo Azevedo

16/10/2026 12:12

Fim da 6X1: Joaquim Nabuco, a escravidão, Flávio e lixo de um senador do PL
O placar de 75 a 1 em favor do fim da jornada 6 X 1 não diz o que está em curso. Se Flávio Bolsonaro (PL) vencer a eleição, dará o grande truque para contornar o que é uma conquista histórica dos trabalhadores: aprovar a proposta do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador político de sua candidatura à Presidência, que institui a contratação por horas trabalhadas. Seria, na verdade, a superação do primeiro entrave para o fim da CLT. Barbárie pouca é bobagem.
Oferecer-se-iam as duas opções: ou jornada 5X2 ou contratação/hora, restando a trabalhadores e empregadores a livre negociação para a escolha. Os reaças chamam isso de “liberdade”. Sim: ser livre tem como condição imanente o poder de escolha. No caso, o empregador é livre para contratar aquele que lhe for mais vantajoso. E o candidato a empregado? Se decidiu entrar na fila do desemprego, não se pode dizer que foi coagido a tanto, não é mesmo?
Antes que avance, noto: entendo, sim, a preocupação desses ou daqueles setores com a PEC aprovada. Desagrada-me muito o argumento, a meu ver intelectualmente terrorista, que acena para o caos. Isso é um padrão que se repete. A toda mudança, a reação responde com risco de Apocalipse, mas sem o triunfo dos bons no fim da história. É vasta a bibliografia sobre as predições dos males que decorreriam do fim da escravidão.
O Brasil tem a notável figura de José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu (1756-1835), um liberal improvável naqueles dias, leitor de Adam Smith, capaz de digressões sobre as mazelas da escravidão, mas sempre reconhecendo a imprescindibilidade da mão de obra escrava, sem a qual a economia entraria em colapso… Há uma hora em que o discernimento e a inteligência requerem o aporte moral, que pode fazer a diferença.
CATASTROFISMO
O catastrofismo sempre comparece, porque também este é uma constante histórica, diante de qualquer avanço. Está até em “Os Lusíadas”. Lá, o Velho do Restelo adverte para os desastres que a expansão ultramarina acarretaria. Aparece na Mitologia Grega — de fato, em qualquer uma. Fim da escala 6 X 1? Só a ruína nos contempla, asseguram alguns empresários — e aí Flávio e o plano de Marinho parecem a solução…
Joaquim Nabuco (1849-1910), no texto “Massangana” — num livro quase inacreditável por sua grandeza: “Minha Formação” (1900), escreveu — e Caetano Veloso pôs música no disco Noites do Norte:
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“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte… É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.”
Pois é. Eu me lembrei de Nabuco quando o senador Carlos Portinho (PL-RJ) — que acabou votando na quarta em favor do fim da 6X1, mas é contra, esperando que Flávio vença e torne, na prática, a medida sem efeito — explicou as dificuldades que advirão com o lixo do seu prédio. Disse o gigante:
“Na vida do trabalhador, eu não tenho dúvida, será positivo. É um sonho trabalhar menos e receber a mesma coisa. Mas eu quero lembrar que não há empregado sem empregador, não há trabalhador sem trabalho, e a gente tem que olhar, em algum momento, para os dois lados da mesa.
Eu moro em um edifício pequeno, de cinco apartamentos. Levo na ponta do lápis para não aumentar a despesa dos meus condôminos. Preciso do meu porteiro, zelador que tá lá há 20 anos, o Seu Francisco. Eu preciso dele no sábado só por uma razão: porque a Prefeitura me obriga um horário específico para ele botar o lixo para fora. É caro viver em apartamento.
Aí eu perguntei ao meu vizinho, que é eleitor do Lula, defende a PEC, mas não quer que o condomínio dele aumente e também não quer descer para botar o lixo dele para fora no sábado: ‘Como é que a gente faz?’ Se eu tiver que registrar outro funcionário para trabalhar um dia na semana, as contas do prédio não fecham.
Sabe o que vai acontecer? Eu não vou contratar outro funcionário com carteira assinada. Eu vou contratar o diarista. Que não recolhe INSS, que não contribui para o seu FGTS e que não tem garantia nenhuma trabalhista. Isso é o trabalho precário, que a falta de um debate profundo sobre os impactos econômicos reais vai acabar gerando na prática.”
Chegou a dizer que seu vizinho petista é gente boa, mas não quer saber de levar o lixo… Ele, Portinho, do PL, em certo sentido, deve ter mais intimidade com a coisa… Mas o ponto não está na minha ironia. É um sestro da extrema direita transformar uma conquista social num empecilho individual para privilegiados. Imaginem como o fim da escravidão pode ter chateado a vida dos nhonhôs e iaiás, não é verdade? De resto, quem disse que o fim da escala impede a contratação de diaristas?
Ademais, ninguém deixará de ser um funcionário contratado pela 5 X 2 para fazer um bico, que não será proibido. A questão dele é falsa como nota de R$ 3. Em última análise, ele está a dizer, ainda que não tenha se dado conta, que talvez seja obrigado a fazer trabalho de preto e pobre — embora tenha jogado o mau espírito nas costas de seu vizinho… “petista”. A elite brasileira, com raras exceções, é mesmo um lixo.
OPÇÃO UMA OVA!
Se Flávio vencer, o PL e seus aliados, de modo mais amplo, armam a tramoia de aprovar a contratação por hora como “alternativa”, que vai virar a regra. A ditadura fez isso. Resumo. E depois vem a minha memória pessoal.
Aprovou-se a Lei nº 5.107 em 13 de setembro de 1966, no governo Castello Branco. Criou o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) como alternativa à estabilidade depois de 10 anos de trabalho, então prevista na CLT, hipótese em que alguém só poderia ser demitido por falta grave. Atenção! Em tese, o trabalhador era livre para escolher. Facilitavam-se as demissões, enfraquecendo os sindicatos, e se ofereciam as “vantagens” do fundo. E surgiu então um binômio de que se falava muito: a “Lei Nova” contra a “Lei Velha”. Rúbens, meu pai, escolheu a estabilidade depois de seis anos na então indústria Rhodia. Uma semana depois da “escolha”, foi demitido. E só conseguiu um novo emprego, muito pior, sob a “Lei Nova”. Quem mandou não fazer a escolha certa? Ele era, afinal, “livre”…
“Esse Reinaldo… Com alguma frequência, vai de Camões ao seu pai…” Fato. A história da humanidade está em mim e no que li. A minha se perde nela, como uma gota “bebida pelos fantasmas”, para citar Kafka de novo. Minha trajetória não tem importância. Camões, Nabuco e Kafka têm. E, claro, longe de mim causar embaraços para Portinho saber onde põe o seu lixo. No geral, faz isso com invejável desenvoltura.


